Crítica: “Edifício Bonfim”

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Entre o concreto de um condomínio comum e o imaginário que insiste em atravessar paredes, “Edifício Bonfim” tenta transformar o banal em inquietação constante. A proposta é clara desde o início, misturar o terror sobrenatural com uma pegada que flerta com o true crime, colocando o espectador diante de histórias que se cruzam mais pela convivência do que por uma amarração sólida.

 "Edifício Bonfim"Crítica: “Edifício Bonfim”

A estrutura fragmentada do filme, dividida em histórias que se cruzam, cria uma dinâmica que desperta curiosidade imediata. Moradores que compartilham o mesmo prédio acabam conectados por eventos cada vez mais macabros, em uma espécie de teia onde o acaso e o sobrenatural disputam espaço. A escolha narrativa funciona como motor inicial, mantendo o interesse enquanto o espectador tenta decifrar como tudo se encaixa.

Sob o comando de Ligia Walper, o filme demonstra intenção e entrega. O elenco, liderado por Gabi Petry e Vinícius Wester, se mostra comprometido, mesmo quando o texto exige mais do que consegue sustentar. Existe dedicação em cena, mas a inexperiência pesa em momentos que pedem maior naturalidade, especialmente nas situações mais extremas.

Visualmente, o longa encontra seus pontos mais interessantes quando desacelera. Transições de tempo, mudanças de ambiente e cenas mais silenciosas funcionam melhor, permitindo que objetos e enquadramentos conduzam a tensão. É nesses respiros que o filme mostra mais controle e identidade.

A trilha sonora acompanha essa irregularidade. Em alguns momentos ambienta, em outros invade a cena mais do que deveria, dificultando uma imersão mais consistente. A sensação é de um filme que encontra boas ideias, mas nem sempre consegue equilibrar seus próprios elementos.

O maior conflito está na própria proposta. Ao tentar sustentar o mistério entre o sobrenatural e o real, a narrativa cria uma dúvida interessante, mas que não se resolve de forma satisfatória. Quando o ato final se aproxima de uma lógica mais voltada ao serial killer, surge a expectativa de uma conexão mais concreta entre os acontecimentos. Essa ligação não se sustenta, resultando em uma cadeia de eventos que não fecha completamente a conta.

O monólogo final reforça essa sensação. Ao invés de consolidar as ideias, amplia a desconexão e evidencia fragilidades no desenvolvimento conceitual. Fica a impressão de que o filme busca uma profundidade que o próprio roteiro não construiu ao longo do caminho.

Aspectos técnicos também refletem essas limitações. A maquiagem, especialmente em figuras como a bruxa, soa artificial em excesso, e algumas escolhas de caracterização oscilam entre o exagero e a falta de definição. Falta uma direção estética mais ousada, que abrace o conceito ou reduza o excesso, evitando esse meio-termo que enfraquece o impacto.

Mesmo com essas questões, o filme apresenta ideias que funcionam de forma isolada. Um dos segmentos, se trabalhado de maneira mais focada, poderia render um thriller mais coeso e envolvente. Existe material interessante aqui, mas que se dilui ao tentar abraçar múltiplas propostas sem o devido aprofundamento.

“Edifício Bonfim” acaba se firmando como um exercício de tentativa, com boas intenções e momentos pontuais de acerto, mas que ainda busca um domínio maior de linguagem e construção. Funciona mais como um laboratório de possibilidades do que como uma obra plenamente resolvida.

“Edifício Bonfim”
Direção
: Ligia Walper
Elenco: Gabi Petry, Vinícius Wester, Sandro Maquel, Welington Moraes, Sarah Motta, Matteo Mazzon
Disponível em: cinemas brasileiros a partir de 7 de maio

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