Francisca desapareceu no dia 25 de agosto de 1987. Grávida de oito meses, saiu de casa durante a madrugada e nunca mais foi vista. Deixou para trás dez filhos, entre crianças e adolescentes, que cresceram carregando uma dor que nunca encontrou resposta.
Naquela manhã, o marido, Ercino Aureliano da Silva, já falecido, havia saído cedo para o trabalho. Ao acordarem, os filhos encontraram a casa revirada. A mãe havia feito as malas e desaparecido.
Sem explicações. Sem despedidas. Sem rastros.
A família, que havia se mudado de Patos, na Paraíba, para Caruaru, em Pernambuco, em busca de melhores condições de vida, viu sua história ser interrompida por um mistério que atravessa décadas. Hoje, mais de 35 anos depois, os filhos continuam procurando.
Reginaldo Aureliano, um deles, hoje com 54 anos, relembra que a mãe demonstrava sinais de angústia nos dias anteriores ao desaparecimento. Suspeita-se de um possível quadro de depressão. Ainda assim, nada explica o sumiço de uma mulher grávida, mãe de dez filhos, que simplesmente desapareceu sem deixar vestígios.
Hoje, Francisca teria 75 anos. Nunca voltou. Nunca foi encontrada.
E é impossível não se perguntar o que aconteceu com Francisca.
Ela fugiu? Tentava escapar de uma realidade difícil? Teve um surto? Ou teve sua vida interrompida de forma violenta, como tantas outras mulheres ao longo da história?
Essas perguntas não pertencem apenas ao passado. Elas são atuais.

Recentemente, o país se chocou com o caso da policial Gisele Alves Santana, que relatava ciúmes extremos do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa. Segundo as investigações, ele é apontado como o responsável pela morte da esposa. O caso escancara, mais uma vez, a realidade de controle, possessividade e violência que muitas mulheres ainda enfrentam dentro de seus próprios relacionamentos.
É nesse ponto que as histórias se encontram.
Entre Francisca, em 1987, e Gisele, nos dias atuais, existe uma longa passagem de tempo. Mas não existe a mesma evolução na realidade vivida por muitas mulheres.
Apesar dos direitos conquistados e das leis criadas para protegê-las, a prática ainda falha. A proteção muitas vezes chega tarde. A segurança ainda não é uma realidade para todas.
A mulher ainda ama com medo. Ainda convive com o risco. Ainda encontra dificuldades para sair de relações abusivas.
A história de Francisca inquieta justamente porque não tem fim. E histórias sem fim são as mais dolorosas, porque não permitem respostas, não permitem despedidas e não permitem paz.
Mas ela também levanta um alerta importante.
Quantas Franciscas ainda existem?
Quantas mulheres desapareceram, seja fisicamente ou emocionalmente, dentro de relações marcadas por dor, silêncio e violência?
E mais do que isso, quantas outras histórias precisarão terminar em tragédia para que a sociedade, de fato, avance?
Os filhos de Francisca ainda esperam. Os netos perguntam pela avó que nunca conheceram. E, todos os anos, no Dia das Mães, o vazio permanece o mesmo.
Francisca Maria da Silva nasceu em 22 de fevereiro de 1950, filha de José da Silva e Maria Tereza da Conceição, na cidade de Patos, na Paraíba.
Qualquer informação sobre seu paradeiro pode ajudar a família a encontrar respostas após décadas de incerteza.
Porque Francisca não é apenas uma história.
Ela é um símbolo de uma realidade que ainda precisa mudar.
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