O impacto não vem do acidente, nem do silêncio da floresta, tampouco do milagre que sustenta a narrativa. O que realmente desconcerta é perceber como a fé, quando atravessada por poder, colonização e conveniência, pode assumir a mesma lógica predatória da destruição ambiental que insiste em avançar. “Transamazônia” observa esse processo com frieza e inquietação, propondo um drama que se recusa a oferecer conforto moral.
Crítica: “Transamazônia”A história acompanha Rebecca, sobrevivente de um acidente aéreo na Amazônia ainda na infância, evento que a transforma em símbolo de devoção e ferramenta de um projeto religioso liderado por seu pai, o missionário Lawrence Byrne. Anos depois, essa menina se torna uma curandeira reverenciada por fiéis, enquanto sua imagem é instrumentalizada como prova viva de um milagre. O filme constrói sua tensão a partir desse corpo transformado em discurso, alguém que carrega cicatrizes físicas e identitárias em nome de uma fé que nunca escolheu plenamente.
Pia Marais aposta em uma encenação contida, quase contemplativa, interessada menos no espetáculo do conflito e mais nas zonas cinzentas que se formam entre crença, afeto e dominação. A floresta surge como espaço simbólico e político, cenário onde interesses religiosos, exploração econômica e a presença indígena colidem de maneira desigual. Ainda assim, essa escolha revela uma fragilidade central da obra. Os povos indígenas permanecem à margem da própria narrativa, reduzidos a reações de raiva ou resistência, sem que suas vozes ganhem densidade real.
Rebecca ocupa um lugar ambíguo. Ao mesmo tempo em que oferece conforto espiritual, sua presença reforça um projeto evangelizador que substitui culturas e crenças locais. O filme acerta ao retratá-la como agente e vítima desse processo, alguém que internaliza um papel imposto desde a infância. No entanto, quando o roteiro tenta aprofundar o conflito familiar, especialmente na relação com o pai e na ausência da figura materna, a construção soa apressada e pouco orgânica. Algumas revelações chegam tarde demais e carecem de impacto emocional, enfraquecendo o arco dramático da personagem.
O maior problema de “Transamazônia” está naquilo que decide observar e naquilo que escolhe silenciar. Ao centrar o olhar quase exclusivamente em personagens brancos, o filme acaba reproduzindo uma lógica de salvacionismo que parece querer criticar. A injustiça contra os povos originários é evidente, mas raramente explorada a partir de sua perspectiva. A denúncia existe, mas a escuta permanece limitada, o que gera um desconforto legítimo sobre o alcance político da obra.
Tecnicamente, o filme é sólido. A fotografia valoriza a densidade da floresta sem romantizá-la, e as atuações seguem um registro contido, especialmente Helena Zengel, que sustenta o filme com um olhar constantemente atravessado por dúvida e cansaço. Jeremy Xido constrói um líder religioso que evita caricaturas, ainda que o roteiro nem sempre ofereça camadas suficientes para justificar suas contradições.
No fim, “Transamazônia” se apresenta como um filme inquieto, provocador em suas intenções, mas irregular em suas escolhas. Existe uma obra potente tentando emergir sob a superfície, interessada em discutir fé, colonialismo e identidade, mas que hesita em deslocar o protagonismo para quem deveria estar no centro da história. O resultado é um drama que provoca reflexão, mas também frustração, justamente por parecer consciente de seus limites sem conseguir superá-los.
“Transamazônia”
Direção: Pia Marais
Elenco: Helena Zengel, Jeremy Xido, Sérgio Sartorio
Disponível em: 8 de janeiro de 2026 nos cinemas
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