O primeiro impacto vem do deslocamento. A câmera avança por ruas estreitas, rostos tensos e olhares que parecem sempre à beira de um colapso. O espaço urbano vira um labirinto emocional, onde cada esquina carrega a promessa de violência e cada passo soa como um erro em potencial. A experiência proposta parte menos da surpresa e mais da imersão. O filme convida o espectador a caminhar junto do personagem, sentindo o peso da perseguição no próprio corpo.
Crítica: “Gatilheiro” (Gatillero)A escolha pelo plano-sequência surge como motor narrativo e também como risco assumido. A câmera permanece próxima demais, quase sufocante, criando a sensação constante de urgência. Em alguns momentos, o excesso dessa proximidade chama atenção para o artifício, mas o saldo favorece a proposta. A tensão se mantém viva justamente porque o filme recusa o conforto do corte, obrigando a narrativa a respirar dentro do caos das ruas da Isla de Maciel, na periferia de Buenos Aires.
A história se ancora em uma premissa conhecida do cinema de gênero. Um homem marcado pelo passado, envolvido com estruturas ilegais, vê sua rotina desmoronar quando se torna alvo de uma caçada pública. A morte da “Madrinha”, figura central que controla o bairro, funciona como estopim para um jogo de interesses que envolve tráfico, polícia, imprensa e políticos que preferem fingir cegueira. Nada disso soa exatamente novo, mas o contexto argentino confere identidade e peso social à trama.
O protagonista jamais é apresentado como inocente. Pelo contrário. O roteiro deixa claro que sua trajetória sempre caminhou ao lado do crime. O que se constrói ao longo do percurso é uma tentativa desesperada de redenção, quase sempre interrompida pela realidade brutal do território que ele tenta abandonar. O bairro não surge como pano de fundo, mas como personagem ativo, impondo regras próprias e cobrando cada transgressão.
As atuações cumprem a função básica da narrativa, ainda que raramente alcancem camadas mais profundas. O texto do roteiro se sustenta por um fio, apostando mais na situação limite do que em diálogos memoráveis. Essa fragilidade se torna mais evidente conforme o filme avança. O orçamento reduzido começa a pesar, as soluções visuais ficam evidentes demais e a encenação perde força. O que começa com vigor termina de maneira apressada e constrangedora, quebrando parte da construção emocional criada até ali.
Mesmo assim, o percurso guarda méritos. A experiência de acompanhar um único dia de tensão contínua funciona como retrato de uma engrenagem social violenta e cíclica. O filme aponta para a divisão de territórios dominados pelo tráfico como uma ferida aberta, algo que segue moldando vidas e destinos de forma cruel. A limitação técnica, longe de invalidar a proposta, reforça a sensação de precariedade que define aquele espaço.
O diretor demonstra visão e entendimento do impacto que deseja causar. Ainda que o resultado tropece no desfecho, o caminho até ali revela um cinema interessado em provocar desconforto e reflexão. Como thriller de ação em plano-sequência, a obra se sustenta como experiência válida, imperfeita e intensa, capaz de deixar marcas mesmo quando falha em fechar seu próprio arco narrativo.
“Gatilheiro”
Direção: Cristian Tapia Marchiori
Elenco: Sergio Podelei, Julieta Díaz, Maite Lanata, Matías Desiderio, Ramiro Blas, Susana Varela
Disponível em: HBO Max
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