Crítica: “C.I.C. – Central de Inteligência Cearense”

há 2 dias 4

Existe um tipo específico de riso que nasce do reconhecimento. Ele surge quando a tela espelha referências conhecidas, códigos populares e um senso de identidade que conversa diretamente com quem assiste. É nesse território que “C.I.C. Central de Inteligência Cearense” decide se instalar, apostando em uma comédia de ação que dialoga abertamente com o imaginário do cinema de espionagem internacional, filtrado por um humor regional que carrega sotaque, exagero e ironia como marcas centrais.

 "C.I.C. - Central de Inteligência Cearense"Crítica: “C.I.C. – Central de Inteligência Cearense”

A narrativa acompanha Wanderlei, o agente secreto conhecido como Karkará, figura que se move entre o herói improvável e a caricatura consciente. A proposta jamais se esconde: o filme quer brincar com o arquétipo do espião infalível, desmontando sua aura de seriedade a partir de um olhar cearense, que troca a sofisticação tecnológica por soluções improvisadas e transforma grandes conspirações globais em situações quase domésticas. O projeto ultrassecreto envolvendo Brasil, Paraguai e Argentina funciona menos como motor dramático e mais como desculpa narrativa para colocar seus personagens em movimento.

As alusões são diretas e assumidas. O filme se alimenta do legado de franquias como “007” e “Missão Impossível”, além de ícones televisivos e cinematográficos ligados à espionagem e à tecnologia futurista. Nada aqui busca originalidade estrutural, e sim a graça do deslocamento cultural. O que aconteceria se todo esse aparato hollywoodiano fosse transplantado para o Nordeste brasileiro, com seus códigos próprios de humor, linguagem e ritmo? Essa pergunta guia o projeto do começo ao fim.

Edmilson Filho domina esse território como poucos. Seu humor corporal, sua dicção e seu timing cômico seguem eficazes, especialmente quando o filme permite pausas para que as piadas respirem. Ainda assim, a insistência em sobrepor gags compromete parte da experiência. Existe uma ansiedade constante em fazer rir o tempo todo, o que resulta em piadas que se atropelam e perdem força antes mesmo de encontrar o público. O uso recorrente do portunhol, por exemplo, acaba mais cansando do que acrescentando camadas cômicas à interação entre os personagens.

O maior conflito da obra talvez não esteja na missão secreta, mas na sua própria identidade. Entre assumir de vez a paródia e flertar com uma estrutura clássica de filme de ação, “C.I.C. Central de Inteligência Cearense” oscila. A sensação é de um filme que reconhece os limites do modelo hollywoodiano, mas ainda assim insiste em reproduzi-lo, mesmo quando isso entra em choque com a força cultural que tenta celebrar. Esse embate cria momentos curiosos, mas também revela fragilidades narrativas e estéticas.

Visualmente, a direção aposta em um ritmo acelerado, com cortes rápidos e cenas que tentam emular a urgência do cinema de ação internacional. O problema surge quando essa velocidade compromete a clareza e o impacto das sequências. A edição frenética dilui o efeito cômico e enfraquece a construção das cenas, transformando o excesso em um obstáculo. O humor, que poderia se beneficiar de silêncio, espera e observação, muitas vezes se perde na pressa.

Ainda assim, há mérito no gesto. O filme se reconhece como uma brincadeira, recusa a solenidade e abraça o absurdo como linguagem. Assistir a “C.I.C. Central de Inteligência Cearense” exige uma disposição específica, aquela que aceita o exagero, o humor escancarado e a repetição como parte do pacote. Para alguns, isso gera riso fácil. Para outros, provoca desconforto e frustração diante do potencial que parece escapar.

No fim, a obra funciona mais como sintoma do que como síntese. Ela revela tanto a força quanto os limites de um humor que já se provou eficaz em outros formatos e contextos, mas que encontra dificuldades ao se expandir dentro de uma estrutura cinematográfica mais ambiciosa. O filme diverte em momentos pontuais, tropeça em suas próprias escolhas e deixa a impressão de que poderia ir além, caso confiasse mais na simplicidade e menos no acúmulo.

“C.I.C. Central de Inteligência Cearense”
Direção: Halder Gomes
Elenco: Edmilson Filho, Alana Ferri, Gustavo Falcão
Disponível em: Globoplay

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