O cinema de ação costuma vender a ilusão de controle. Tudo parece calculado, coreografado, resolvido na base da força ou da astúcia. Quando essa lógica é deslocada para dentro de um conflito familiar, o resultado tende ao exagero, ao absurdo e, em alguns casos, ao entretenimento despretensioso. É exatamente nesse território instável que “Boca de Fumo” decide operar, misturando cartel mexicano, agentes da DEA e adolescentes rebeldes que acreditam saber mais do que realmente sabem.
Crítica: “Boca de Fumo” (Trap House)A premissa se apresenta como um jogo de espelhos. De um lado, agentes experientes, acostumados a lidar com o submundo do crime organizado. Do outro, seus próprios filhos, jovens que transformam informações sigilosas e táticas aprendidas dentro de casa em um esquema improvisado de assaltos a um cartel perigoso. A ideia carrega potencial dramático e cômico, mas o filme escolhe caminhar por um meio-termo curioso, sem assumir totalmente nem a sátira, nem o realismo cru.
As referências são evidentes e fazem parte do pacote. Há ecos de filmes de ação adolescentes dos anos 1990, como “Toy Soldiers”, filtrados por uma estética mais violenta e atual, flertando com o clima de produções como “Sicario”, embora sem jamais alcançar sua densidade. O problema é que essa mistura raramente se sustenta de forma convincente, especialmente quando o roteiro pede que o espectador aceite adolescentes suburbanos enfrentando um cartel com a mesma naturalidade de um jogo online.
Michael Dowse conduz a narrativa com ritmo eficiente. O filme jamais se torna entediante, sabe organizar suas set pieces e se beneficia de uma fotografia surpreendentemente competente, que valoriza cenas de ação e cria uma sensação de urgência constante. Quando a câmera acompanha os agentes adultos, existe peso, tensão e uma tentativa real de verossimilhança. Sempre que o foco migra para os jovens, o tom escorrega para algo próximo de um produto juvenil genérico, criando um desequilíbrio difícil de ignorar.
Dave Bautista surge como o principal elemento de sustentação. Há algo em sua presença que ancora o filme, mesmo quando o roteiro força situações pouco críveis. Seu personagem carrega o peso de um pai viúvo, dividido entre o dever profissional e o fracasso emocional dentro de casa. Ainda que os diálogos entreguem frases ocas e moralizantes, Bautista consegue extrair alguma humanidade do papel. Assistir a ele em cena continua sendo um prazer, especialmente em um gênero que carece de figuras carismáticas desse porte.
Bobby Cannavale aparece de forma mais decorativa do que deveria. Talentoso como sempre, seu personagem soa subaproveitado, quase reduzido a um elemento estético dentro da trama. O elenco jovem oscila bastante, com exceção de momentos pontuais em que o roteiro oferece pequenas inversões de expectativa. Nada aqui busca profundidade emocional, e quando tenta, tropeça na própria superficialidade.
O terceiro ato concentra os melhores acertos do filme. Um giro narrativo bem posicionado injeta energia nova na história e entrega sequências de ação mais generosas. É nesse momento que “Boca de Fumo” se assume como aquilo que realmente é, um produto exagerado, quase novelesco, que aposta em ganchos e reviravoltas para manter o interesse. A sensação de gancho para uma continuação surge de forma descarada, evocando uma lógica típica de franquias de ação dos anos 2000.
No fim das contas, a grande questão permanece. Para quem esse filme existe. Violento demais para um público adolescente tradicional, raso demais para quem busca um thriller adulto consistente. “Boca de Fumo” funciona como entretenimento de sessão tardia, daqueles que acompanham bem uma tarde preguiçosa ou uma noite sem grandes expectativas. Imperfeito, irregular, mas curioso o suficiente para não ser descartado com facilidade.
“Boca de Fumo”
Direção: Michael Dowse
Elenco: Dave Bautista, Bobby Cannavale, Kate del Castillo
Disponível em: Amazon Prime Video
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