O medo costuma se apresentar de forma silenciosa. Ele entra pela fresta da rotina, se instala na casa e passa a ditar regras invisíveis. Quando a maternidade encontra o sobrenatural, esse medo ganha contornos ainda mais perturbadores, especialmente quando a fé surge menos como acolhimento e mais como imposição. É desse desconforto que “Além-Mundo” se alimenta, apostando em uma experiência que flerta com o terror, mas se ancora em um drama religioso de viés bastante definido.
Crítica: “Além-Mundo” (Here After)A trama acompanha Claire, mãe que celebra o retorno improvável da filha após um acidente fatal. O que parecia um milagre rapidamente se transforma em inquietação. A criança volta diferente, carregando algo difícil de nomear, como se a travessia entre a vida e a morte tivesse deixado resíduos. O filme constrói sua tensão a partir dessa percepção materna, um instinto que sente o perigo antes que ele possa ser explicado.
A premissa dialoga com um imaginário clássico do cinema sobrenatural, aquele em que a morte deixa marcas e o retorno cobra um preço. No entanto, “Além-Mundo” opta por um caminho muito específico. A narrativa se organiza a partir de símbolos religiosos, discursos moralizantes e uma visão bastante rígida sobre culpa, punição e salvação. A sensação constante é de um filme mais interessado em ensinar do que em provocar, o que compromete sua força dramática.
Robert Salerno conduz a história com uma encenação que aposta em enquadramentos tortos, silêncio prolongado e uma atmosfera solene. Existe um cuidado técnico evidente, especialmente na construção de um clima opressivo, mas a repetição desses recursos acaba esvaziando o impacto. O que começa como sugestão logo se transforma em insistência. O suspense prometido nunca se converte em ameaça real, e o terror cede espaço a uma didática previsível.
O roteiro trabalha com paciência, quase como uma chama baixa que demora a aquecer. Para alguns, essa escolha favorece a imersão emocional. Para outros, o resultado soa arrastado e pouco recompensador. A narrativa se leva a sério o tempo inteiro, sem espaço para ambiguidades ou leituras alternativas, o que limita o envolvimento e reduz a complexidade do conflito apresentado.
Connie Britton sustenta boa parte do filme com entrega emocional, mesmo quando o texto oferece pouco espaço para nuances. Sua Claire é uma mãe exausta, movida por medo e devoção, ainda que suas reações pareçam, em certos momentos, mais programadas do que orgânicas. Freya Hannan-Mills se destaca ao transmitir estranheza com economia de gestos, construindo uma presença inquietante que funciona melhor quando o filme decide observar em vez de explicar.
O maior problema de “Além-Mundo” reside na forma como transforma o sobrenatural em instrumento ideológico. A fé surge como única resposta possível, e qualquer desvio parece condenado ao sofrimento. Essa abordagem reduz o potencial simbólico da história e afasta o filme de discussões mais ricas sobre luto, trauma e maternidade. Em vez de abrir perguntas, a obra fecha sentidos.
No fim, “Além-Mundo” se apresenta como um drama religioso travestido de suspense sobrenatural. Tecnicamente competente, emocionalmente rígido e narrativamente limitado. Um filme que poderia explorar o medo como experiência humana universal, mas prefere enquadrá-lo dentro de uma lógica punitiva e pouco aberta ao diálogo.
“Além-Mundo”
Direção: Robert Salerno
Elenco: Connie Britton, Freya Hannan-Mills, Giovanni Cirfiera
Disponível em: Paramount+
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