#ArteviewNaPoltrona Review de “O Diabo Veste Prada 2” (2026)

há 3 horas 3

Quando falaram que iriam fazer O Diabo Veste Prada 2, a primeira dúvida não era sobre a história, mas sobre o tempo. O que ainda resta daquele mundo? O que sobrevive quando o glamour encontra a realidade?

O filme parte de um lugar menos confortável. Já não existe o fascínio imediato do primeiro encontro com a Runway. O brilho continua ali, mas não sustenta mais tudo. Há um mundo que mudou — e que parece não ter mais o mesmo espaço para aquilo que um dia definiu poder, elegância e relevância.

A narrativa acompanha o retorno de Andy Sachs, novamente vivida por Anne Hathaway, agora uma jornalista consolidada que, em meio à crise do próprio mercado, se vê demitida e, quase contra a própria lógica do passado, obrigada a retornar à revista Runway. O que poderia soar como um recomeço carrega, na verdade, um sentido mais duro: o de sobreviver em um sistema que já não garante estabilidade nem para quem, um dia, conseguiu escapar dele.

Ao redor dela, o mundo da moda também parece deslocado. O filme sugere, com ironia e certa melancolia, que a sofisticação perdeu espaço para a velocidade. Que o olhar apurado disputa terreno com algoritmos, números e decisões tomadas por quem não demonstra qualquer interesse pelo que está sendo criado. A moda continua existindo, mas já não ocupa o mesmo lugar simbólico.

Existe também uma crítica mais silenciosa, mas constante, à forma como o jornalismo foi sendo esvaziado nesse processo. O filme aponta para um cenário em que o olhar editorial, construído com tempo, repertório e intenção, cede espaço a conteúdos rápidos, guiados por métricas de engajamento. Não se trata apenas de uma mudança de formato, mas de uma perda de profundidade. A moda deixa de ser linguagem para se tornar produto. E o jornalismo, que antes organizava esse olhar, passa a disputar atenção em um ambiente que já não valoriza permanência, mas velocidade.

É nesse cenário que Meryl Streep retorna como Miranda Priestly. Ainda há presença, ainda há controle, mas existe uma mudança perceptível. O poder absoluto agora parece precisar negociar. Há momentos em que Miranda soa menos intocável e mais consciente de que o mundo já não responde à sua lógica como antes. Sua força permanece, mas já não é incontestável.

Essa transformação não acontece isoladamente.

Emily Blunt assume um espaço mais afiado dentro dessa nova dinâmica. Sua Emily carrega o sarcasmo que a definiu, mas agora atravessado por experiência. Existe uma leitura mais estratégica do mundo, quase como alguém que aprendeu a sobreviver dentro do sistema sem necessariamente acreditar nele.

Stanley Tucci, como Nigel, surge como uma espécie de memória viva daquele universo. Sua presença tem algo de afeto, mas também de desgaste. Há um olhar que acolhe, mas que também reconhece o que foi perdido. Nigel permanece, mas carrega consigo a sensação de que nem tudo pode ser preservado.

E talvez seja justamente isso que define o tom do filme.

Há uma sensação constante de fim de ciclo. Não apenas de personagens, mas de um modelo inteiro. Revistas impressas perdem espaço, o jornalismo se fragiliza, a moda se adapta a um ritmo que não permite contemplação. Os desfiles passam rápido, os figurinos surgem e desaparecem quase sem tempo para existir plenamente. O espetáculo ainda está ali, mas já não é o centro.

No lugar do deslumbramento, surge o conflito.

Entre tradição e modernidade. Entre experiência e velocidade. Entre um olhar construído ao longo de décadas e uma nova lógica que privilegia influência, números e imediatismo. O filme aponta para essa transição com clareza, inclusive ao retratar figuras de poder mais jovens, mais ricas e, muitas vezes, desconectadas da cultura que dizem comandar.

No meio disso, Andy assume uma posição mais ativa. De observadora, ela se transforma em alguém que tenta reorganizar esse mundo. Há um desejo de reconstrução que, em alguns momentos, se aproxima de um idealismo talvez otimista demais. Conflitos complexos encontram soluções rápidas, como se o filme precisasse acreditar que ainda existe algum espaço possível dentro de um sistema em desgaste.

E essa é uma das suas tensões mais evidentes.

Entre reconhecer a precarização do trabalho, o esvaziamento cultural e a perda de relevância de certas estruturas, e ainda assim insistir na ideia de que é possível resistir. Que ainda há valor nas relações, nas alianças e, principalmente, na força de mulheres que se recusam a desaparecer junto com esse mundo.

Há também uma mudança de olhar importante. Miranda já não é mais construída como uma figura a ser temida. Existe menos crueldade, menos distância. O filme parece entender que o tempo já não comporta esse tipo de liderança da mesma forma — e, com isso, desloca sua força para outro lugar.

No fim, O Diabo Veste Prada 2 não tenta repetir o encanto do original. Ele segue um caminho inverso. Parte de um mundo mais instável, mais cansado, e busca, dentro dele, algum espaço de permanência.

Não é mais sobre entrar em um universo dos sonhos.

É sobre encarar o que resta quando esse sonho já não existe da mesma forma — e decidir, ainda assim, ficar.

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