Empreendedorismo feminino e os desafios diários da mulher

há 1 mês 24

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Foto: Anete Pitão

O protagonismo feminino no mercado de trabalho foi o tema central da palestra “Empreendedorismo Feminino e a Sobrecarga do Cuidado: Desafios e Possibilidades”, ministrada por Rosária Francisco, assessora técnica do Projeto Roda Familiar. Integrante da programação do “Março Por Elas”, o evento promoveu um debate profundo sobre as engrenagens que movem — e, por vezes, travam — o desenvolvimento econômico das mulheres.

O debate foi impulsionado por uma realidade vivida na pele, mas raramente contabilizada: o impacto do trabalho de cuidado não remunerado na geração de renda. Rosária Francisco apresentou dados do IBGE que revelam um abismo de gênero: enquanto as mulheres dedicam, em média, 21,4 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas, os homens dedicam apenas 11 horas.

“Muitas vezes, a mulher não exerce um trabalho remunerado porque precisa priorizar os cuidados com a casa e a família”, destacou a palestrante. O cenário é complexo: cerca de 49% das empreendedoras são chefes de domicílio, acumulando uma jornada dupla que resulta em 17% menos tempo dedicado aos seus negócios em comparação aos homens.

Foto: Anete Pitão

Essa estatística reflete o dia a dia de canaenses como Alvanice Gomes Rodrigues, que relatou, emocionada, como o empreendedorismo surgiu por sobrevivência. “Fui criar minha família sozinha. Na época, o dinheiro não dava para pagar água, luz e comida. Comecei a multiplicar fazendo tapioca”, contou.

Antônia Rodrigues Lima também encontrou no comércio uma saída para desafios severos. Vendendo cocadas, ela custeou os estudos dos filhos e a casa própria. O sucesso foi tamanho que ela chegava a vender 150 unidades em apenas 30 minutos. “Faturei R$ 6.000,00 por mês, garantindo nosso sustento”, afirmou Antônia, que hoje também é escritora. Sua trajetória confirma outro dado alarmante: o empreendedorismo por necessidade é a realidade de 50% das mulheres negras no Brasil.

Para Rosária Francisco, o cenário em Canaã dos Carajás reforça que discutir empreendedorismo vai além de planos de negócios; envolve garantir direitos básicos e uma rede de apoio que redistribua o peso do cuidado. O objetivo não é uma disputa com os homens, mas a alteração de uma estrutura social que limita a autonomia financeira e a qualidade de vida feminina.

Embora o município registre avanços em políticas públicas, a especialista ressalta que o caminho para a igualdade depende da união. “Acredito que quando mulheres se apoiam e se fortalecem, as transformações acontecem”, pontuou. Ao final, a mensagem foi nítida: para que a mulher empreenda com potência, a sociedade precisa, primeiro, valorizar quem cuida.

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