Quando sentei para assistir Michael, a cinebiografia de Michael Jackson, havia uma expectativa difícil de medir. Não se trata apenas de mais uma cinebiografia, mas de revisitar a trajetória de alguém que deixou de ser apenas um artista para se tornar uma presença quase permanente na cultura. Falar de Michael Jackson nunca é simples. E talvez o filme entenda isso mais do que tente resolver.
Existe, antes de tudo, uma escolha muito clara de recorte. O filme se concentra na trajetória que vai dos anos 70, ainda na infância e nos primeiros passos com os Jackson 5, até o fim dos anos 80, quando Michael se afirma definitivamente como artista solo, culminando no impacto da era Bad. Esse limite não é casual. Ele define o olhar do filme. Aqui, a intenção não é abarcar toda a vida, mas observar a formação de um artista e de um ser humano antes das camadas mais controversas que viriam depois.
A narrativa percorre esses momentos como fragmentos, quase memórias. Há menos interesse em explicar e mais em fazer sentir. E é justamente nesse espaço que o filme encontra sua força mais evidente.
As sequências musicais não funcionam apenas como recriação, mas como experiência. E muito disso passa pelas atuações.
O jovem Michael, interpretado por Juliano Krue Valdi, constrói uma base emocional silenciosa, mas essencial. Existe delicadeza no olhar, mas também um peso que já começa a se formar. A forma como traduz uma infância marcada por exigência e exposição não depende de grandes falas. Está nos gestos contidos, na maneira como observa mais do que reage. É ali que o filme encontra seu lado mais humano.
Já o trabalho de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine Jackson, opera em outra escala. Nos números musicais, existe um nível de entrega que impressiona. Durante Billie Jean, recriando o momento da Motown 25, há uma precisão de corpo e intenção que não soa como imitação. Em Thriller, o filme ganha vida não só pela estética, mas pela construção de um artista consciente do impacto do que cria. E em Beat It, acompanhando o nascimento da coreografia e do clipe, surge algo mais íntimo, quase um processo, que aproxima o espectador desse lado criativo.
Não é apenas reprodução. Existe presença.
E talvez seja justamente nessa transição que o filme encontra seu ponto mais interessante. O menino que observa e absorve o mundo se transforma no artista que passa a dominá-lo. Juliano constrói a base. Jaafar expande. E, juntos, sustentam uma continuidade emocional que o roteiro nem sempre acompanha.
São nesses momentos que o filme deixa de ser apenas uma cinebiografia e se aproxima de algo mais vivo.
Ao mesmo tempo, essa escolha de recorte também explica uma das principais críticas. Ao focar nesse período, o longa evita entrar nas polêmicas mais conhecidas, que surgem principalmente a partir dos anos 90. Para alguns, isso pode soar como omissão. Mas o filme parece interessado em outro movimento: entender a construção antes da ruptura. O artista antes do peso total do mito.
A direção de Antoine Fuqua segue um caminho mais clássico, sem grandes riscos formais. Em alguns momentos, isso limita a força do filme, especialmente diante de uma figura tão singular. O ritmo oscila, há passagens que passam rápido demais e outras que poderiam respirar melhor. Fica a sensação de que a história é grande demais para caber ali.
E talvez seja por isso que o filme não se encerra completamente.
Há uma abertura clara para uma continuação, como se esse primeiro capítulo fosse apenas o início de algo maior. Uma segunda parte que deve avançar para os anos mais complexos da vida de Michael, ampliando o olhar que aqui ainda se mantém mais contido.
No fim, Michael não é um retrato definitivo. E nem tenta ser. É um recorte. Um olhar sobre um período em que o artista estava se formando, se afirmando e descobrindo o tamanho do próprio impacto.
E dentro desse recorte, encontra sua força. Principalmente quando deixa a música falar.
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há 5 horas
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